Quando eu era criança os rádios de pilha tinham um acessório chamado "egoísta", que consistia basicamente de um único fone de ouvido que a pessoa colocava para ouvir as músicas sozinho.
Um pouco depois apareceu o Walkman, que já permitia que o cara gravasse suas músicas preferidas em fitas cassete. Estes já contavam com fones de ouvido duplos, tipo desses que um DJ usa e, em seguida, veio o Diskman que obrigava o sujeito a andar com um saco de pilhas de tanto que gastavam. Mais ou menos nessa época os fones começaram a diminuir, porque passou a ser "mico" usar aquelas duas orelhas gigantes na rua.
E enfim chegou o iPod e suas imitações. O fone cobiçado passou a ser o "in ear", um treco que vai enfiado (opa!) no canal (opa!) auditivo (ahhh, bem!) da pessoa.
Os fones agora voltaram a crescer, mas isso não importa, o que importa após essa extensa intrudução é como se comportam as pessoas quando usam um desses fones, ligados a qualquer um desses aparelhos.
A turma do "egoísta" era mais discreta, primeiro porque era em um ouvido só e depois porque programação de rádios AM não é lá algo muito animado, mas já padeciam de problema que dura até hoje, que é a surdez do fone de ouvido.
Você fala com a pessoa e ela responde um "QUE???", repete o que tinha pra dizer e ela e a resposta é "AHHH, PODE IR SIM!", detalhe: você tinha perguntado as horas. Isso pra não falar de quando é você que está usando o fone e começa a gritar sem perceber, até que o interlocutor passe a fazer aqueles gestos de "fala baixo", te fazendo tirar o fone às pressas, mas ainda a tempo de ouvir seu último urro, seguido do silêncio geral em torno. Sério, são segundos que podem durar bastante.
Aliada à surdez, tem a empolgação com a música que está tocando. Você está na calçada, voltando do trabalho e de repente começa a tocar aquela música que te lembra o primeiro beijo na sua primeira namorada. Você acha que ninguém te ouve, aliás, nem você se ouve e então pensa que está apenas balbuciando, mas com certeza aquela menina que parece que sorri para você está na verdade rindo de você, porque talvez seja a melhor imitação do Pato Donald cantando Elvis que ela já viu.
Outro caso sério é quando, dependendo do ritmo, você pensa que ninguém perceberá se acompanhá-lo com movimentos do corpo. Em segundos você estará fazendo fazendo papel ridículo tocando guitarra no próprio antebraço e inventando passinhos, virando a partir desse momento o "doido da academia" ou então o "doentinho do curso de espanhol".
Irritante também é o cara que apesar de usar fones acredita que aquela bolha sonora particular o protege de ser um mala. Nessa hora ele subverte toda a função do fone de ouvido que é restringir o alcance do que está tocando aos ouvidos de quem o utiliza e coloca o som no volume máximo, o que não permite que as pessoas ouçam claramente o que está tocando mas enche o ambiente próximo com aquele barulho que mistura uma frigideira e um pneu de carro furado, algo próximo de um "tsss tsss tsss tsss".
Mas o mais degradante certamente é quem se acha, ainda que inconscientemente, um artista injustiçado. Coloca rock'n'roll pra tocar, vai correr na praia e de repente, protegido da sua própria voz desafinada pelos fones, vira o Gene Simmons ou o Axl Rose, repetindo todos os agudos e sons guturais que tem na música, cantando num palco imaginário para uma platéia formada por criancinhas assustadas, velhos preocupados com "o problema das drogas" e vira-latas que correm atrás de motos e malucos.
Na boa, grito por grito, ainda prefiro os do Axl Rose.



















