quinta-feira, 20 de outubro de 2011 Postado por mvsmotta   3 comentários:

Geralmente começa com uma matrícula em aulas de dança do ventre, uma palestra num centro de macrobiótica ou um panfleto de um templo hare krishna.

De repente ela troca o nome pra Julia Fatula ou Sarah Madhava e pronto, é o que basta. Assim, sem mais nem menos, ela vira uma garota "zen". Pára de comer picanhas aos domingos, de beber cervejas às sextas e o sexo das tardes de sábado só rola se for voltado na direção de onde o sol de põe em Calcutá (e com a cama trocada por uma esteira).

Papos cabeça, frases desconexas, cabala-vodu-tarô-zoroastrismo.

Se você diz que está com calor, ouve como resposta algo como "o equiíbrio dos chacras transcedentais precisa estar em harmonia com a existência do arhat". E pensar que você só queria uma cerveja gelada.

Mas o problema é que não foi apenas sua reclamação sobre o tempo que gerou aquele ataque-zen, qualquer coisa que você diga recebe como resposta uma lição, uma moral da história, uma frase sobre aceitação-privação-sublimação-reinvenção de alguma coisa, desde a vontade de comer um chocolate até pisar num cocô de cachorro na rua.


Você passa a viver na companhia de um cruzamento de Paulo Coelho com Baby Consuelo.

Sem contar a transformação da casa dela numa filial do Mundo Verde. Os móveis são arrumados de acordo com o que algum livro de feng shui mandou, o que terminou colocando a mesa de jantar no banheiro social e o sofá na área de serviço, sem contar os incensos, a música indiana, as estátuas de Budas, Ganeshas, os cristais e até um boneco do Batman vestido com roupa de árabe.

Pedir um simples milk shake vira um suplício:

- Vamos tomar um milk-shake?

- Procure a resposta nas vibrações do entorno do seu bodhisattva...

- Tá, baunilha ou Ovomaltine?

- Habib, o seu eu te dirá isso na hora certa.

- Caralho, pelo menos me diz se quer grande, médio ou pequeno?

- Na verdade prefiro um suco de clorofila.

E assim coisas stress, carne vermelha, rock pesado e fast food passam a fazer quase tanta falta quanto o ar que você respira (sem controle de respiração e nem Yoga, porque você está de saco cheio disso).

Não é à toa que namorar uma economista do mercado financeiro ou uma caixa de banco fã do Iron Maiden passou a ser sua obsessão.

Se não der, que seja pelo menos uma gerente do Burger King.

terça-feira, 18 de outubro de 2011 Postado por mvsmotta   4 comentários:

O que aconteceu com a boa e velha ilha deserta? Sério. Porque ultimamente acho que, depois da cama, esse é o lugar mais convencional que as pessoas pensam quando querem trepar ("fazer amor" é coisa de mulherzinha e homem sem pinto).

Outro dia li que um instrutor de vôo livre e ator pornô (vamos fazer de conta que esse currículo heterodoxo não é notícia por si só) foi demitido por fazer sexo com uma recepcionista durante um saldo de para quedas.

Achei que era mais um hoax, esses boatos da internet, mas não, a capa do Meia Hora (jornal de alto nível) do dia seguinte mostrou que era, sim,  true story.

E isso me levou a pensar de novo na ilha deserta e a concordar que realmente é um lugar meio sem graça para realizar conjunções carnais (falo isso mas não falo "fazer amor"). Afinal de contas, um banheiro de rodoviária, o alto de uma estátua eqüestre ou dentro do octogono do UFC (durante uma luta, é claro) é muito mais emocionante.

Não sei mais onde alguém poderia imaginar fazer saliências, mas como tenho mente fértil, pensei em algumas situações que, se analisarmos bem, nem são tão difíceis de acontecer depois que alguém pensou em transar durante um salto de pára-quedas.

No meio de uma cerimônia de casamento, por exemplo. Todo mundo sabe que a cerimônia é o tributo que a gente paga para comer de graça depois. Tirando os noivos (talvez nem eles), ninguém mais curte muito aquilo. Sendo assim, até que seria divertido se alguém resolvesse transar ali e interromper o "sim" dos noivos com um "yesssssss, baby".


Outro lugar maneiro seria no meio de uma reunião corporativa. O Power Point bombando, todo mundo babando em cima da montanha de copinhos de café em cima da mesa e você ali, pensando que a Dr. Cláudia do jurídico até que é bem gostosinha. E bem, uma coisa leva à outra e quando todos menos esperam rola um daqueles diálogos de filmes do Buttman:

- Seu cilindro de fax já está pronto?

- Sim, vou botar tudo na sua xerox.

E já que o negócio é fugir dessa coisa simplória de cama e quatro paredes, pode rolar no meio de uma passeata, durante uma visita a sua avó operada (embaixo da cama da velha), numa aula de pilates, em cima de bicicletas de Spinning, na platéia de um show do Wando (nesse caso o casal corre até o risco de ser contratado como atração fixa), num rodízio de pizzas, na fila do supermercado. Não faltam opções.

Só não pode em lugares batidos, tipo banheiro de avião. Porque convenhamos, né, banheiro de avião é quase tão sem graça quanto o quarto de casa ou uma ilha deserta.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011 Postado por mvsmotta   7 comentários:

Em algum momento, em algum lugar da sua vida, por algum motivo que você não faz a menor idéia, você a conhece.

Ela é fofa, ela é gente fina, ela tem sempre uma mensagem de otimismo para espalhar pelo mundo mesmo nas horas mais graves, está sempre penteada, escovada, empoada, pintada, pronta.

E ela é rosa. Sim, rosa.

No início você até achou aquilo meio fofo, uma capa de celular das Meninas Super Poderosas, um toque meio infantil talvez pra te mostrar que ela não deixou a criança que existe nela se perder. O toque com a música da Pantera pareceu meio over, mas pelo menos não era nada dos Los Hermanos e nem havia algo da Barbie à vista.

Até ela mexer na bolsa procurando alguma coisa e tirar um chaveiro da Hello Kitty, o que dá quase no mesmo. E de repente você começa a enxergar coisas.


As unhas são pintadas de rosa, os brincos são rosa, o batom, a sombra nos olhos, a capa do iPad e você não entende como pode não ter percebido isso antes, ela é a Elle Woods, sem ser a Reese Witherspoon, o que não é tão legal.

Mas o pior mesmo é imaginar como deve ser o quarto dela. Bichos de pelúcia, cortinas rosa e roupa de cama que parece que foi roubada do museu da Dona Beija.

Um toque mulherzinha não pega mal, afinal de contas é isso mesmo que ela é, mulher. Mas a mochila da Pucca te deu certeza que ela tem sérios problemas e que precisa de um analista. Morar com os pais aos 30 anos e referir-se ao próprio órgão sexual como "ximbinha" também contribuiram bastante para o seu diagnóstico.

Mas a gota d'água, o que te fez terminar com tudo de uma vez por todas foi aquela calcinha do Mickey.

Ainda mais porque você sempre preferiu o Pernalonga mesmo.

terça-feira, 11 de outubro de 2011 Postado por mvsmotta   1 comment

Apesar de parecer tudo a mesma coisa, existem tipos diferentes de chato. Um é o chato gente boa e o outro é o chato gente ruim. Aparentemente são a mesma coisa, afinal, são chatos, mas um é pior do que o outro, acredite.

O chato gente ruim é mais fácil de se lidar, porque sua chatice é unânime. Ele olha pra bunda da sua mulher, pede dinheiro emprestado e não paga, conta piada sobre a tia doente da própria namorada, faz montagem com a foto da mulher do chefe dançando macarena na festa de fim de ano da firma.

Ele é o cara que finge que conhece aquela velhinha de 90 anos só pra furar a fila de idoso no banco, que pára o carro pra ver acidente de trânsito e ainda pergunta "é ketchup?", que constrói frases usando as expressões "sexo oral", "engasgo" e "pentelhos" durante o jantar.

O chato gente ruim chega numa festa de casamento (de penetra), entra na fila dos cumprimentos e oferece o indicador pra noiva dizendo "puxa aqui". É de bom tom não gostar dele,  falar mal dele, chega a dar status social. Você pode odiá-lo à vontade, é até incentivado a isso pelas pessoas numa rodinha de conversa.

O chato gente boa não. Ele é tão chato quanto o outro, mas é de um tipo bem pior, porque ainda por cima você se sente culpado por não gostar dele.


É aquele cara que chega te dando uma porrada nas costas e depois entrega uma lembrança que trouxe da Europa pra sua irmãzinha de 2 anos. E tudo nele é sempre assim, binário: uma encheção de saco, uma gentileza.

Ele sempre tem admiradores. Se você fala que ele é chato, logo aparece alguém pra dizer "que nada, ele é tão bonzinho". É voluntário no escotismo, corre a meia maratona e muita gente acha que ele é um cara muito "animado", o que é só o outro nome pra "chato".

Se vem andando na sua direção e você pensa "porra, detesto esse cara", ele se aproxima te dá a xerox do texto da aula que você faltou, te oferece um gole do que estiver bebendo, e fatalmente te deixando com cara de cu.

Sem contar que ainda adora mandar emails de cachorrinhos, gatinhos e coelhinhos em Power Point. Porra, como alguém vai xingar aqueles bichos filhos da puta que entopem sua caixa postal ao som de "We Are The World" sem ser chamado de insensível?

Por isso mesmo é que se você tiver opção, prefira a companhia da reencarnação de Hitler ou Stalin, do Darth Vader, de vendedores de Herbalife, de uma rodinha de violão inteira e até do chato vacilo, mas fuja do chato gente boa.

Se conseguir, é claro.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011 Postado por mvsmotta   7 comentários:

Há um tempo li que galinhas não voam tão alto quanto urubus, mas pelo menos não comem carniça e nem são sugadas por turbinas de aviões.

Dito de outra forma, você jamais vai se espantar se um amigo seu aparecer usando ombreiras e mullet se ele sempre tiver sido chegado num visual trash anos 80. Mas com certeza você vai se espantar se um dia aquela gostosa do seu trabalho sair de férias e voltar de cabeça raspada, com uma suástica tatuada na têmpora e pedindo pra ser chamada de "João" a partir de agora.

Disse tudo isso porque outro dia a aparição na TV do vocalista e líder do Guns'N'Roses, Axl Rose, durante o show da banda no Rock in Rio, causou tanta comoção que eu pensei que ele estava torturando filhotes de coelho no palco.

Mas não foi nada disso, todo mundo no Twitter, no Facebook, nos bares, esquinas e até nas aldeias da Amazônia estavam indignados porque o sujeito ficou velho e gordo. Isso mesmo: velho e gordo. Nada de coelhos torturados, nada de sacrifício de virgens vestidas de Branca de Neve, nada de velhos travestis plantando bananeira usando saias, mas apenas o fato do Axl Rose ter envelhecido.

Quase ninguém pensou no fato de que a menos que ele fosse um mutante, um vampiro ou um Highlander, é meio que normal ele ficar velho.


Mas aí volta a história da galinha e do urubu. Alguém por acaso reclama que o Lemmy do Motörhead ficou feio, gordo ou esquisito com o passar dos anos? Não. Simplesmente porque ele nunca foi um sex symbol mesmo.

Daí a minha teoria de que não ser cool tem um lado bom. Pense no pessoal do seu colégio. Todo mundo ficou mais ou menos igual eram nossos pais (menos os que tinham pais bonitos): uns carecas, outros barrigudos, outras viraram pudins de celulite, mas a gente só se choca mesmo com quem era bonito. Os feios só mudam de feiúra e alguns até ficam melhores do que eram.

A mesma coisa com quem já foi considerado gênio. Ninguém se irrita se um imbecil resolver falar alguma imbecilidade, mas se a pessoa for conhecida pela sua inteligência, não convém de uma hora pra outra aparecer demonstrando uma "intelijença".

Por isso existe um lado bom em ser aquele em que ninguém presta muito atenção, a não ser por uma estranha habilidade de fazer esculturas usando pão de forma e pasta de amendoim.

Você pode usar pochete, pedir pra parar o churrasco e tirar uma foto da picanha pra colocar no Orkut, fazer a brincadeirinha do "pavê ou pacomê" todo santo dia (mesmo que a sobremesa seja sorvete de papaya com M&Ms), aparecer no trabalho calçando uma sandália Croc amarela e até ir na praia usando sunguinha de crochê.

E ninguém vai se espantar, você nunca foi cool mesmo.

terça-feira, 4 de outubro de 2011 Postado por mvsmotta   6 comentários:

Ter um MSN ou Facebook hoje em dia parece mais obrigatório do que ter um celular, afinal, quantas vezes você já se pegou trocando seu endereço online ao invés de um número de telefone?.

E até que estas formas de comunicação sejam abandonadas por alguma coisa que neste momento vive apenas na cabeça de um adolescente nerd em algum lugar do mundo (e vai virar moda só daqui a alguns anos), é com elas que vamos conviver por um bom tempo.

Só que o uso do computador para intermediar as comunicações humanas criou problemas que, por razões óbvias, não existiam na época do telefone.

Por exemplo: se você agora pode se esconder de certas pessoas (o que te ajuda a fugir dos chatos), também fica sujeito a cobranças do tipo "você estava online mas ficou invisível só pra não falar comigo".

Outro problema é que, se ao conversar pelo telefone, você não pode mudar a "formatação" da sua voz, em chats de internet precisa conviver com gente escrevendo em Comic Sans rosa ou Monotype lilás, além de coisas piscando, brilhando, saltando da tela e frases entremeadas de estrelas, flores, corações e cabras.

Mas se tem algo que não muda é que seja ao vivo, pelo telefone ou na internet, você ainda estará sujeito aos analfabetos funcionais, e terá que decifrar  frases como "axuh ke keru i nu cinma ve o dezenho dos smurfes".

Na internet também é estranho falar com gente que é chegada em escrever usando caixa alta. Sim, porque caixa alta transmite uma agressividade que nem o Anderson Silva consegue passar por conta daquela voz fina que ele tem. Alguém que escreve assim parece sempre brigar, ainda que diga algo como "GOSTO MUITO DE VOCÊ, SABIA?".


Mas o pior de tudo são aquelas conversas que não fluem. Por exemplo, você vai contra a sua vontade no aniversário da um amigo, mas para sua surpresa encontra no mesmo grupo uma garota bonita, inteligente, boa de papo.

Ela curte ufologia, leu todos os livros da Anne Rice, é fã do Morrissey e bebe Grapette. Vocês conversam por horas e trocam email para se falar depois. Só que a mediação de um computador parece que acabou com toda aquela empatia, a transformou num oficial de imigração alemão, e aquilo que parecia mágica vira algo tão inspirador e excitante quanto suco de clorofila:.

- Tudo bem? Legal falar contigo de novo, adorei nossa conversa aquele dia...

- É?

- É sim, achei você diferente do pessoal que frequenta aquela boate, você salvou minha noite.

- Porque?

- Ah, todo mundo ali é meio playboy, sabe como é, aquele negócio de rave, micareta, cordão de prata, camisa polo com suéter pendurado no ombro...

- Ah, tá...

- Você tá meio calada, aconteceu alguma coisa?

- Não.

- Bom, acho que vou voltar pro trabalho aqui, o que você acha de combinarmos um cinema qualquer dia desses?

- Blz.

- Então tá, a gente se fala, sei lá, daqui a uns 10 anos mais ou menos.

- Ok.

É nessa hora que você pensa que era bem melhor quando as pessoas apenas trocavam números de telefone (ou escreviam cartas, sei lá).

sexta-feira, 30 de setembro de 2011 Postado por mvsmotta   3 comentários:

Todo mundo tem sua fama.

Lutamos contra elas ou não, isso não importa, porque as pessoas vão continuar nos atribuindo características de acordo com a visão que têm de nós.

Mas de todas as reputações, as que me causam mais estranheza e curiosidade são as famas de "puta" e a de "come quieto", principalmente por serem inversamente proporcionais no sentido de sua manutenção.

Tome como exemplo uma garota que possua todas as características da popular "galinha". Fica com qualquer um, corneia o namorado com o irmão de 16 anos dele, bebe às custas de trouxas na balada, vai pra um batizado usando uma mini-saia de vinil e salto plataforma, enfim, se houvesse um check-list de elementos que identifiquem uma galinha, ela teria mais ítens conferidos do que um Boeing pronto para decolar rumo à Tóquio.

No entanto se você conversar com ela, vai pensar que é mais santa do que a sua avó.

Não gosta de falta de respeito, só sai pra dançar, nunca pegou o moleque de 16 anos (isso é fofoca da puta da ex-namorada do namorado dela) e acha a sociedade muito hipócrita por julgá-la baseada nas suas roupas (ainda que ela esteja te dizendo tudo isso nua, no motel, depois de cornear o namorado contigo).

Ela tem a fama, mas faz de tudo para negar.

Já o come quieto é diferente. Tive um amigo assim. Diferente da galinha, que deseja realmente que você acredite que ela não é galinha, ele também nega que coma alguém, que tenha ido para uma festa de arromba, que pegou a namorada do irmão mais velho quando tinha apenas 16 anos e, claro, rechaça veementemente a história que conta que ele pegou a professora de português boazuda na oitava série.

Nega tudo jurando sobre a Bíblia, a Torá e o Alcorão empilhados, mas no final dá um piscadinha pra você.


E aí é que está a diferença: ele nega, mas quer que você pense o contrário. Ele gosta da fama, ele quer a fama, mas sabe que no exato momento em que resolver abraçá-la, os outros vão começar a se questionar: "pera aí, será que esse prego fez tudo isso mesmo?".

Se ele fica quieto, ou melhor, se chega ao ponto de negar, o que todos pensarão? "Ah, o safado quer esconder o jogo".

E o amigo que mencionei acima era exatamente assim. Ele agia da seguinte maneira: comprava dois ingressos para algum lançamento do cinema, escolhia uma garota da turma e chamava pra ir com ele, dizendo que ganhou numa promoção. Se a garota aceitasse, ele chegava pra alguém e dizia:

- Vou no cinema com a Fulaninha hoje...

Era fatal a curiosidade:

- Vai pegar?

- Nada, só vou ver filme, comer pipoca e voltar pra casa...

Claro que a pessoa que ouvia pensava "vão pro motel transar com algemas e chantilly a tarde inteira".

No dia seguinte ele voltava à carga:

- Foi maneiro o filme ontem...

- Ah, vai dizer que você viu mesmo o filme? Duvido, deve ter dado uns amassos nela...

- Eu não faço nada, eu sou um otário, eu não pego ninguém.

E parecia óbvio que se ele mesmo estava dizendo isso é porque alguma coisa tinha acontecido e assim a fama se alimentava eternamente.

E como ninguém ia lá perguntar pra guria o que tinha rolado, até porque não tinha o que perguntar já que o cara mesmo disse que não tinha feito nada, todo mundo pensava "esse aí é malandro, come quieto e ainda se faz de bobo".

Esse tipo de situação só tem uma forma de dar errado: ele chamar a galinha pro cinema.

Porque nesse caso, mesmo que ele conseguisse fazer alguma coisa, seria ela a dizer:

- Aquele lá? Não faz nada, não pega ninguém, por isso mesmo que eu fui no cinema com ele, porque gosto é de respeito...

quarta-feira, 28 de setembro de 2011 Postado por mvsmotta   6 comentários:

Digamos que cada pessoa tem um Caetano Veloso vivendo dentro de si (ou não). Seja como for, é incrível a pressão que jogam em cima de nós para ter alguma opinião sobre quase qualquer assunto.

Tudo bem que muita gente adora ter opinião sobre tudo (o que nem é um problema), mas complica quando resolvem contar essa opinião para os outros (aí sim, geralmente vira um problema).

Defendo a censura? Não. Mas acho que se as opiniões de um cretino são mesmo tão preciosas pra ele, o sujeito deveria tratá-las como tesouros que são: trancando num cofre.

Só que, às vezes, aparece um amigo chorando as mágoas de uma dor de corno, uma aula ou reunião para a qual você não se preparou, alguém te contando um problema ou simplesmente quando querem um elogio.

Nessas horas você precisa dizer algo.

Por isso coisas como "É foda...", "Complicado...", "As pessoas são assim mesmo", "Não se pode confiar em ninguém", "Eu sei como você se sente", "Tem coisa pior do que isso", "Mulher (ou homem) é tudo igual", "O tempo cura tudo", "Nisso é melhor nem se meter", "Irado", "Super legal", "E não é que é mesmo?", entre outras, são uma forma inesgotável de falar sem dizer coisa alguma.

Seu amigo foi traído pela namorada? "As pessoas são assim mesmo, mulher é tudo igual".

Querem saber o que você acha sobre a Primavera Árabe? "Irado".

O noivo da sua amiga fugiu no dia do casamento com a tia dela? "Não se pode confiar em ninguém".

Pegaram seu chefe trancado com uma anã no depósito de limpeza? "Nisso é melhor nem se meter".

O Brasil perdeu o quarto pênalti seguido na semi-final da Copa América? "Tem coisa pior do que isso".

Alguém diz numa mesa de bar que só tem corno no Espírito Santo? "E não é que é mesmo?".

Sua amiga gorda te mostra uma foto de biquini no Beach Park? Você até queria dizer "é foda", mas solta mesmo um "Super legal".


Note que você opinou, elogiou, interagiu com seu interlocutor, demonstrou interesse e solidariedade pelo que ele te disse e no entanto não precisou dizer absolutamente nada relevante sobre o assunto.

A única situação em que isso não funciona muito bem é quando esperam um pouco mais do que simples opiniões e empatia vindas de você, como uma aula sobre Marx ou uma reunião sobre balanços semestrais.

Nesse caso também é simples, basta deixar que alguém diga alguma coisa primeiro e depois você repete tudo o que a pessoa falou rearrumando as palavras:

- Marx tinha uma concepção hegeliana da história.

E você:

- Inclusive, me permitam acrescentar, Hegel foi uma grande influência na concepção histórica marxista.

Ou então:

- Estes balanços semestrais mostram que nossa empresa pode reinvestir parte do lucro líquido em programas de capacitação.

Aí você complementa:

- Aliás, eu li na Forbes que programas de capacitação são boas opções para o investimento do lucro líquido.

No final das contas, todos vão te considerar um cara ponderado, conhecedor, estudioso e útil, porque se tem uma coisa que faz com que as pessoas te consideram um verdadeiro gênio, é você concordar com elas.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011 Postado por mvsmotta   3 comentários:

Ainda que pareça o contrário, se o seu vizinho beber whisky falsificado também vai ter uma dor de cabeça dos infernos igual a você, se arrepender igual a você e prometer que nunca mais vai beber na vida, igual a você.

Adoramos admirar a vida dos outros, isso é um fato, mas também é um fato (dos grandes) que a mulher do vizinho também tem TPM, também fica com dor de cabeça e inclusive dorme de calça jeans de vez em quando.

O outro pode ter uma vida tão chata quanto a sua, tão mediana, monótona e cheia de preocupações, ainda que, visto daí de onde você está, pareça que até o ato de passar fio dental é mais interessante quando não é você que precisa fazer.

Bom mesmo é ser o vizinho, o cara da mesa do lado, o sujeito passando lá fora.

Sim, porque a menos que você tenha visto a pessoa passar por alguma merda muito grande, como, sei lá, enviar sem querer o arquivo "noivinhas_profundas.jpg" anexado num email que deveria conter uma planilha de Excel pro chefe, geralmente a vida dela parecerá mais fácil e interessante do que a sua.

O outro não deve procrastinar trabalhos (já que o trabalho dele é muito mais interessante do que o seu), não deve perder a hora de manhã (muito menos ter um despertador que ganhou de presente do chefe e que berra "acorda vagabundo" com a voz da Dercy Gonçalves), nunca pega um ônibus lotado (que nem você pega todo dia, ainda que saia de casa uma dia às 9:00, outro às 10:00 e já tenha tentado até sair ao meio-dia) e jamais precisa fazer dieta.

Se faz dieta, come uma salada muito mais apetitosa, um brócolis com gosto de picanha nobre e com certeza só bebe mate sem açúcar porque acha muito mais gostoso do que uma Coca-Cola geladinha.

Geralmente ele ganha mais (e se não ganhar mais, vai ser capaz de fazer muito mais coisas com o pouco que ganha do que você) e sempre, sempre é um outro que acerta na Mega Sena (o que ajuda a manter sua paranóia).

As contas dele são menores, o cartão de crédito nunca manda a fatura e o banco sempre esquece de cobrar juros. O Fusquinha que ele anda é melhor do que o seu carro (ainda que ele seja uns 20 anos e pareça uns 30 anos mais velho) e aquele cheese-bacon que ele manda pra dentro na Kombi da esquina não vem com gordura suficiente para lubrificar o motor do Fusca.

Os casamentos que ele vai são mais legais e até os engarrafamentos dele são divertidos, sem contar que você já cogitou entrar pra Amway e pra Herbalife que nem ele, afinal, visto daí aquelas reuniões parecem ser o maior barato.

E de repente até a idéia de rebaixar seu carro, colocar um daqueles sonzões de trio elétrico e sair por aí que nem o seu vizinho ouvindo funk nas alturas não parece tão ruim.

Não, não. Pensando bem esse aí aquele vizinho do outro lado, o que você acha tão escroto que preferiria reencarnar como uma poltrona do meio de avião do que ser que nem ele.

Mas não tenha dúvidas: por mais que sua vida pareça monótona e regular, alguém está de olho nela (menos, é claro, aqueles que preferem reencarnar como um microfone de karaokê, a ter que viver como você um dia).

sexta-feira, 23 de setembro de 2011 Postado por mvsmotta   7 comentários:

Antes que eu comece, não esqueça que até Hitler arrumou uma namorada, então por mais detestáveis que sejam as suas opiniões - achar que o funk carioca é um poema urbano, por exemplo - você também encontrará alguém que te ature.

Mas o problema é que, até que isso aconteça, vários dos seus relacionamentos serão mandados para o recall.

Sempre acreditei que nos unimos aos outros mais pelo que detestamos do que pelo que gostamos. Por exemplo, um sujeito que é mais propenso a ficar amigo de quem deteste rodinhas de violão do que de um fã dos Beatles como ele.

Isso porque o outro fã de Beatles pode pegar o violão para cantar "Hey Jude" num luau, mas quem detesta rodinhas de violão vai continuar detestando, logo, melhor ser amigo deste.

Só que nem sempre isso é tão definido. E assim como é impossível encontrar alguém que goste de tudo o que você goste, também será impossível achar quem deteste tudo o que você detesta.

Sendo assim, relacionamentos são a arte do possível.

- Hum, o que eu detesto mais? Rodinha de violão tocando Stairway to Heaven ou tocando música gospel numa estação de trem? Já sei! Vou namorar a Milena!

Mas ainda assim a coisa não é tão simples. Relacionamentos são sempre no esquema tentativa e erro mesmo e todo mundo mente e age como aquelas fotos de cheeseburgers no Mc Donald's, que parecem muito melhores do que o sanduíche é em si.


Você pode, por exemplo, conseguir ficar com a única menina da micareta que resolveu que vai casar virgem. Imagina só que azar.

No filme "Alfie, o Sedutor", o protagonista conhece uma loira, rica, linda. Resolve ficar com ela, larga a esbórnia e se tranca com a moça dias e dias no quarto (no filme eles não dizem nada a respeito, mas creio que eles saíam pelo menos para comer e escovar os dentes).

Ele está totalmente apaixonado, até que num dado momento em que vão fazer um brinde, ela quebra seu copo batendo com força no dele, e solta uma gargalhada que só posso definir como escrota.

Ali, naquele momento, o encanto termina.

O personagem do filme não curtiu a gargalhada (confesso que também tenho problemas com gargalhadas, gente que ri emitindo sons de porco não serve pra ir pra cama comigo, por exemplo), mas pode ser uma frase, uma idéia, uma teoria, qualquer coisa que mostre a pessoa além do que ela quer parecer para você.

A pessoa pode ser racista, vegetariana, fã de sertanejo universitário, eleitor do Tiririca, preferir Pepsi ao invés de Coca, não gostar de chocolate, confessar uma tara por mães de namoradas, contar que está juntando dinheiro pra uma cirurgia de mudança de sexo, enfim, não faltam incompatibilidades incontornáveis por aí.

É aquela coisa do limite, sabe? "Opa!! Pera aí! Isso também não!".

O casal acaba de transar e o cara resolve "se abrir" com ela:

- Sabe o que é? Sou nazista. Morro de tesão naquele bigodinho, por isso aliás é que me encantei com você quando te vi pelada...

Tudo bem, sei que esse exemplo foi exagerado, mas o que poderia ser pior do que um cara que sente tesão pelo bigodinho do Hitler? Talvez só mesmo alguém que realmente ache que funk carioca é um poema urbano.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011 Postado por mvsmotta   3 comentários:

Já teve horas em que eu pensei que o revival dos anos 1980 fosse durar até mais ou menos 2980.  E o pior é que pra quem não viveu aquela época, fica a impressão que só curtíamos Bozo, pirocóptero, ursinho blau-blau e "Como uma Deusa" da Rosana.

Eu sei que geralmente uma moda só fica escrota depois que passa e por isso mesmo é bom que passe. Já se imaginou usando pochete e ombreiras até hoje?

Mas o que ninguém percebe é que a maioria das modas já era escrota mesmo no auge, e esses revivals funcionam como se daqui a 20 anos as pessoas fossem relembrar os tempos de hoje falando do Luan Santana e cantando "vou não, quero não, posso não, minha mulher não deixa não...".


Pior mesmo são as reedições. Woodstock II, Rock in Rio IV com Cláudia Leitte, revival da velha Bunker (boate ícone da noite alternativa carioca, que ficava num espaço fechado que lembrava realmente um bunker) num clube com vista pro mar e passeios de barco.
Já não basta a passagem dos anos que vai nos tirando juventude e os nossos lugares queridos (tipo a Dr. Smith, outro ícone da noite carioca, que acabou e deu lugar a uma lavanderia), ainda precisa aparecer uns abutres para devorar a carniça das lembranças alheias.

É como ler num anúncio: "Revival do Studio 54 no Castelão do Funk: Mr Catra, Tati Quebra-Barraco e Antônio Manero fazendo os passos de John Travolta ao som do proibidão. Reviva o clima da famosa boate de Nova York!". Francamente.

Não demora muito e aparece algum moleque dessa geração punheta-ice-Restart querendo ensinar o que é o verdadeiro sexo-drogas-rock'n'roll pro Keith Richards.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011 Postado por mvsmotta   4 comentários:

Pouca coisa é tão constrangedora quanto misturar amigos.

Sei que ficou confusa a frase acima, mas você já vai me entender. Cada um de nós é um indivíduo único, mas ainda assim nos dividimos no que somos para nossa família, nossos amigos, nossos colegas de trabalho, a turma da rua, o pessoal do futebol, a namorada, os filhos.

Cada um nos vê de forma diferente e terminamos agindo mesmo diferente junto de cada um deles.

Essa estranha (e na maioria das vezes despercebida) esquizofrenia social - o sujeito que é bom moço em casa, coroinha na igreja e no final de semana vira party animal - é potencial usina de constrangimentos, que geralmente acontecem quando estes grupos se misturam.

Mais ou menos como se algum amigo que treina boxe contigo te pegasse depilando o peito ou a turma do seu fã-clube do Bolsonaro te ver numa aula de dança de salão.

Misturar amigos de épocas diferentes da nossa vida também gera esse tipo de situação.

Você rersolve sair com a turma da sua pós-graduação em psicologia e encontra o pessoal da rua que você morou há uns 15 anos atrás. Pro pessoal da pós você é aquele sujeito que senta na primeira fila, leva um iPad pra acompanhar a aula e namora uma socióloga que fala francês.

Mas pra turma da sua rua você é apenas o "Barraca", que vomitou na mesa do bolo de uma festa de debutantes e tinha a estranha mania de cuspir no seu copo de Coca-Cola só pra não ter que dar um gole pra ninguém.


Nota que rola um verdadeiro choque de "Eus"? E sempre algum cretino está ali para fazer com que seus dois "Eus" se choquem.

- Deixa eu apresentar aqui pra vocês o pessoal que morou comigo lá em Jacarepaguá: esse é o Paulinho, esse é o Marco Antônio, esse aqui é o Luciano. Esse é o pessoal que faz pós comigo.

- Porra, Barraca, nunca pensei que você conseguisse passar do 2º grau...

- Mas então, bom ver vocês, agora dá licença...

E assim como sempre tem um cretino para fazer seus "Eus" se chocarem, também sempre tem um do outro lado que fica curioso:

- Que negócio é esse de Barraca?

- Ah, ele não contou pra vocês isso não? É que a gente tinha uma professora de matemática muito boa e ele sempre ficava de pau duro na aula...sabe como é? Barraca armada?

Gargalhada geral, menos sua, é claro.

A meia hora seguinte é toda gasta com histórias sobre como você perdeu a virgindade com a empregada vesga do seu vizinho, sobre a vez em que você quase se afogou no mar e foi resgatado de helicóptero numa daquelas gigantescas puçás e sobre como ficou de recuperação em matemática, passando as férias inteiras na companhia da professora gostosa, que terminou te reprovando (daí a surpresa por você ter conseguido chegar na pós-graduação).

No final a experiência te lembra porque você resolveu estudar psicologia, já que, aos olhos dos outros, você lembra bastante um caso clínico.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011 Postado por mvsmotta   10 comentários:

Parece que o ser humano foi feito para jamais perder uma boa oportunidade de perder uma boa oportunidade.

A maior delas geralmente é a de ficar calado, mas não é a única.

Digo isso porque quase todo mundo já achou um dia que seria valorizado quando num ataque de honestidade neuro-incapacitante, resolveu confessar para o professor que copiou um trabalho na internet ou para a namorada que deu uns beijos na prima dela naquele final de festa, e no final acabou lembrando porque o ditado diz que em "boca fechada não entra mosca" e não "boca fechada não ganha um beijo de língua da Scarlett Johanson".

E oportunidades perdidas nos perseguem para o resto da vida. Você consegue esquecer o seu aniversário de casamento (supondo, é claro, que você não tenha se arrependido de não ter entrado num avião para a China ao invés de entrar na Igreja naquele dia), mas não esquece aquela garota que te deu mole na 6ª Série e você preferiu ir jogar War com seus amigos ao invés de tentar perder a virgindade aos 12 (e não aos 19 como foi de fato).

E por falar em 6ª Série, lembro que o The Cure veio dar um show no Rio de Janeiro quando eu estava na escola e eu acabei brigando com um amigo (fizemos as pazes depois, mas nunca mais a amizade foi igual) porque ele me pediu para comprar ingressos pra irmos juntos e, em cima da hora, desistiu do show para jogar uma pelada.


No lugar dele, jamais esqueceria o show que não fui (e acabou sendo histórico) por causa de uma bosta de um jogo de futebol na quadra da escola.

Suponho isso porque vivi coisa pior por causa uma bolsa de estudos que ganhei para passar três meses na Inglaterra quando tinha 16 anos.

Imagine só, terra dos Smiths, da realeza, dos Beatles, do Fish&Chips e até dos deliciosos pudins de rim, mas tinha um problema: era nos meses de Janeiro, Fevereiro e Março e eu não queria "perder" o verão.

Resultado: não fui.

Coisas assim me fazem pensar que certas decisões da nossa vida deveriam ser tomadas por uma comissão. Sério, você reuniria umas 4 ou 5 pessoas que fariam um debate e depois tentariam te convencer do que é melhor naquele momento.

Caso a conversa não funcionasse, estariam liberados para te dar uma surra com cabos de vassoura.

Porque no final das contas, hoje nem consigo lembrar o que fiz naquele verão, e só posso imaginar tudo o que teria feito caso tivesse embarcado no avião da British Airways.

E essa oportunidade perdida volta e meia aparece pra rir na minha cara (e quando descobre que eu passei a detestar verão, calor, Carnaval, etc), ela não só ri, como gargalha. E com razão.

Umas vassouradas não seriam tão ruins assim.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011 Postado por mvsmotta   11 comentários:

De repente todo mundo parece um turista japonês.

Sei que até eu tenho culpa no cartório nessa, já que faço igual muitas vezes, mas a grande responsável mesmo é a indústria fotográfica e suas câmeras digitais.

Se antes nós precisávamos espremer nossas fotos em, no máximo, 36 poses dos filmes, agora contamos com vários gigabiytes para usar e desperdiçar eternizando abraços, viagens, a namorada pelada, filhotes de cachorro, pudins, cheeseburgers, insetos na parede, o vizinho barrigudo saindo do banho, etc.

Nossa sociedade sofre de obsessão pelo registro (ou "Síndrome do Turista Japonês"). Eu sofro de obsessão pelo registro. Sentamos num restaurante e quando chega aquele brownie delicioso de sobremesa, comemos vorazmente, certo?

Mais ou menos. Primeiro sacamos o celular e tiramos uma foto, depois, aí sim, é que fazemos o remake de "Shark Attack".

Se estamos diante de um monumento qualquer, seja em Paris ou em Duque de Caxias (deve ter algum por lá), primeiro tiramos uma foto na frente do monumento, depois ao lado do munumento e terminamos correndo dos guardas quando tentávemos tirar uma foto na garupa da estátua eqüestre do monumento.

Sem contar os duzentos e setenta e nove closes e tomadas diferentes. Viramos aquele anão da Amélie Poulain.


Acho que isso é fruto da efemeridade dos nossos tempos. Se antes aquela estátua do General Brancaleone era colocada no centro de uma praça e permanecia ali por séculos, hoje algum prefeito pode criar alguma comissão de artistas que após uma dezena de reuniões vão concluir que a estátua é "esteticamente feia" e precisa ser retirada.

E assim como a paisagem urbana, tudo que nos cerca é efêmero. Você tira foto de um BIS sabor limão porque não sabe até quando a Lacta vai continuar produzindo-o. Tira foto junto com seus amigos no churrasco, na praia, no rodízio de pizza, na delegacia registrando ocorrência, vomitando na micareta, porque sabe-se lá quanto tempo aquela amizade vai durar.

Antes nossa infância era toda coberta com 100, 200 fotos. Hoje quem quiser relembrar os tempos de criança achará um acervo com algo em torno de 500 gigabytes e 100 mil fotos. Vai precisar contratar um CSI pra fazer o trabalho.

Não basta mais "estar ali", é preciso registrar cada pequeno detalhe para mostrar depois.

Aí, vendo esses álbuns que as pessoas colocam na internet, concluo que muitas delas só conheceram realmente a Torre Eiffel ou o Empire State Building semanas depois, quando chegaram em casa e foram revirar as fotos que tiraram no local.

É mais ou menos como conhecer os lugares através de cartões postais, só que pagando um pouco mais caro por isso.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011 Postado por mvsmotta   10 comentários:

Se tem uma lei que pegou no Brasil, esta é a lei das carapuças. Todo mundo age como se estivesse tentando roubar uma bala juquinha nas Lojas Americanas e de repente ouvisse uma sirene de polícia.

"É comigo? É comigo?".

Parece incrível, mas ainda que neguem, a maioria das pessoas sofre de complexo de perseguição. Todos disfarçam se dizendo tímidos, dizendo que não gostam de ninguém se metendo nas suas vidas, que não ligam pra opinião dos outros e até mandando um "Coé? O que tá olhando?" se alguém encara demais na rua.

Tudo fruto da incrível capacidade que o ser humano tem de pensar que o mundo gira ao redor do seu próprio umbigo. O sujeito que sempre acha que estão olhando pra ele, falando dele, jogando indiretas para ele, na realidade é um puta de um egocêntrico.

E sim, muitas vezes estão olhando mesmo para nós, jogando indiretas para nós e até falando mal de nós pelas costas, mas acredite: é pela mais pura e simples falta de opção. Geralmente quando falta assunto é que você começa a falar mal dos outros. Observe em qualquer mesa de bar.


O Flamengo e o Corinthians já foram discutidos à exaustão, a política nacional idem, física quântica, dialética e até novelas de TV já foram devidamente esgotados, não sobra mais nada. Aí algum dos presentes - provavelmente estimulado pelo álcool - dá a deixa:

- A Claudinha saiu com o Pedrão e disse que de "ão" ele só tem o apelido mesmo, porque quando chegaram no motel o negócio lá era uma mistura de Batom da Garoto com Lingua de Gato da Kopenhagen...

Pronto. O Pedrão virou o assunto, mas note que numa escala de interesses, ele ficou atrás do futebol, dos deputados do Congresso, de teorizações sobre o eu interior e até da novela das 6.

Perceba como se você estiver falando algo baixo com alguém, cochichando mesmo, e chegar uma terceira pessoa de repente, ela vai logo perguntar "estão falando de mim, né?".

Como se responde isso? "Sim, estamos falando que você é um babaca" ou "Não, estamos falando de um assunto mais interessante: a discografia do Oswaldo Montenegro"? Qual das duas opções ofenderia menos?

Na internet acontece a mesma coisa. Qualquer comentário feito nessas redes sociais é respondido por meia dúzia de pessoas que têm certeza absoluta de que aquilo ali foi dirigido a ela.

Se você diz que detesta aquele "pi-pi" do Nextel, surgem hordas de cretinos dizendo que você "não paga as contas deles e que eles usam Nextel o quanto quiserem". Se você diz que curte mulher inteligente, logo aparecem comentários como "Pô, sô muito intelijente, Nem, vem logo ni min que eu sei que cê tá afin".

E se for alguém da turma do Pedrão, bem, vai ficar perigoso dizer que tá afim de um chocolate.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011 Postado por mvsmotta   3 comentários:

Todo mundo sabe que vivemos numa sociedade que se baseia na aparência, mas calma, não precisa parar de ler agora já imaginando que esse será mais uma defesa xarope sobre a necessidade de "valorizarmos o eu interior". Esqueça, eu posso ser cretino mas não tanto.

O fato é que nos importamos com aparência sim e a única coisa que muda são os parâmetros e os conceitos sobre uma "boa aparência". Se antes a sociedade prezava fartos bigodes e seios, hoje nos matamos nas academias como hamsters naquelas esteiras para ostentarmos a maior magreza ou o maior bíceps possível.

Imagino um dia, no futuro, os nossos tataranetos intrigados sobre como podíamos apreciar mulheres com as costas de um estivador ou homens que se depilam. Mas tudo bem, até lá eles provavelmente sentirão tesão por antenas ou coisa parecida.

E como gostamos muito mais do que algo se parece do que aquilo que é na realidade, é fácil usar esse tipo de coisa a nosso favor.

A avó de uma amiga minha tinha a maior pinta de importante. Sério, você batia o olho na velha e pensava que era uma prima da rainha Elizabeth ou pelo menos uma baronesa. Só que como não temos nobreza no Brasil, ela - esperta como boa brasileira - colocou um adesivo do Tribunal de Justiça no carro e quando passava numa blitz dizia pra quem estivesse na direção avisar que "a juíza estava com pressa".

Nunca foi parada em uma blitz sequer. Por via das dúvidas os PMs deixavam a "juíza" passar.

Faça um teste se quiser (não dizendo que é juíza, é claro) mas, por exemplo, chegar bem vestido num lugar "fechado para convidados" e entrar sem perguntar nada a ninguém. É grande a chance de não te pararem para dizer nada, afinal, só quem é muito importante chega sem precisar ser anunciado.


A maior prova disso acontece no ambiente de trabalho. Será que o CEO da Coca-Cola ou o COO ou CFDPPQP (sei lá quantas siglas dessas existem) de uma grande multinacional precisa usar crachá? Ora, só quem precisa ser identificado é você, que é um Zé Ninguém. Essa gente chega perto e as portas se abrem sem nem precisar dizer "abre-te sésamo".

É capaz de você ainda terminar dando entrevista no Programa do Amaury.

Fotógrafos também entram em quase tudo que é lugar. Basta um colete e uma máquina com aparência de profissional que ninguém vai saber se você é do New York Times, do Globo ou só um maluco de câmera e colete. Você corre sério risco de te colocarem pra dentro, a menos que seja um casamento de celebridades, aí você talvez leve uma surra dos seguranças especializados em amaciar carne de paparazzi.

Outra coisa que funciona é dizer que "está com a banda". Você chega numa boate ou casa de shows, vai pra entrada dos fundos, faz cara de tédio e pressa e diz:

- Oi, eu estou com a banda.

Só tome cuidado de antes ver qual a programação do dia, pra não ouvir algo como:

- Você tem certeza de que faz parte do coral de freiras?

quarta-feira, 7 de setembro de 2011 Postado por mvsmotta   9 comentários:

Meu sorvete preferido é menta com flocos. Você há de perguntar: e daí? Eu te respondo: não imaginei maneira melhor de começar esse texto.

Como detesto ditados populares (mesmo, me sinto mal quando preciso repeti-los no meio de uma conversa), já que apesar de significativos, fazem o que se tem a dizer parecer mais "vazio", por isso preferi dizer meu sabor preferido de sorvete do que falar que "a vingança é um prato que se come frio".

Mas apesar de não gostar muito desses ditados, confesso que "a vingança é um prato que se come frio" é um excelente ditado. Se juntarmos com o "apressado come cru" fica melhor ainda, um verdadeiro dois em um da sabedoria popular, queijo com goiabada, auto-explicativo.

E mesmo que eu ache que dependendo da situação a vingança não é prato frio nem quente, mas um prato quebrado na testa do cretino, é fato que um troco bem planejado, com ares de jogo de xadrez, é bem interessante e ainda por cima te faz parecer mais inteligente.

No fundo é como qualquer vingança, ou seja, ressentimento transformado em ação, mas que soa mais classudo, isso soa.

E um bom exemplo é o da ricaça argentina Corina Kavanagh. Ela era jovem, rica, bonita e susceptível ao amor como todo jovem (não necessariamente bonito). Quis casar com outro jovem, rico, bonito, susceptível ao amor, porém membro de uma família tradicional e aristocrática (aquela coisa de berço e tal), a Família Anchorena.


Os Anchorena foram contra o casamento, pois achavam a Srta Corina meio nova rica, emergente, meio Barra da Tijuca, sabe como é? Os pombinhos então não se mataram como Romeu e Julieta e nem largaram tudo para fugir juntos como Edward VIII e Wallis Simpson. Simplesmente não casaram e pronto.

Só que a Corina não levou isso muito na boa.

Ela recebeu uma herança, comprou um terreno em frente à casa da família do ex-amor e mandou erguer ali o Edifício Cavanagh, um lindo arranha-céu em art-déco com 120 metros de altura, 12 elevadores e uma única exigência: que os arquitetos o construíssem de forma a obstruir totalmente a visão que o palacete dos Anchorena tinha de uma igreja erguida pela família do outro lado da rua.

Dito e feito. Os metidos a besta perderam a vista e o Edifício Kavanagh hoje é considerado um monumento histórico nacional da República Argentina. Uma vingança que virou um belo edifício.

Pelo tempo que devia levar para planejar e construir um prédio desse tamanho na década de 30, suponho que essa vingança foi um prato frio, mas tão saboroso pra ela quanto um sorvete de menta é pra mim (talvez um pouco mais caro).

Moral da história: se um dia te sacanearem fique milionário, compre um terreno, erga um prédio e ferre com a vista da casa do cretino.

Se esse plano for meio complicado, bem, quebre um prato na cabeça dele e vá relaxar tomando um sorvete, do sabor que você preferir, é claro.

E não reclame do meu final, foi a forma que eu achei de usar "prato", "frio", dizer que a vingança é doce e dar um fim nessa história.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011 Postado por mvsmotta   8 comentários:

No Brasil falar em privatização pega mais mal do que dizer que o Maradona foi melhor do que o Pelé.

Aos olhos de muita gente, privatizações nada mais são do que tubarões do poder econômico se utilizando de governantes "entreguistas" para se apoderar daquilo que era do estado, logo, "do povo".

Esquecem que no país da economia estatal, hoje não teríamos mais telefones celulares do que habitantes. E isso é apenas um exemplo de como o tripé iniciativa privada-concorrência-fiscalização pode fazer bem a qualquer atividade.

Mas pra quem ainda duvida disso, conheço um belo exemplo prático acontecendo no Rio de Janeiro, que é a história do Canecão, uma das mais antigas casas de espetáculos da cidade.

Depois de 40 anos de "luta", a Universidade Federal do Rio de Janeiro conseguiu recuperar o terreno em que foi erguido o Canecão. O reitor comemorou a "retomada do espaço", os alunos comemoraram, a guerra finalmente foi vencida e todos puderam dizer "o Canecão é nosso!".

Uma notícia publicada no site G1 no dia 10/05/2010 contava tudo em detalhes. Os defensores do patrimônio público tinham vencido mais uma contra os entreguistas.


Só que no dia 20/12/2010, ou seja, pouco mais de sete meses após a reconquista do território, uma reportagem do jornal O Globo mostrava que o Canecão estava "abandonado e sem previsão de reabertura".

Procurado pelo jornal, o diretor de gestão patrimonial da UFRJ declarou que "este assunto passa por várias instâncias da universidade até que se decida o que vai ser feito com a casa. Diversos setores serão consultados para se chegar a um consenso, que será submetido aos órgãos colegiados da universidade".

Ou seja, tudo o que o poder público sabe fazer de melhor: abandonar imóveis, deixar um patrimônio subutilizado e formar comissões para estudar o assunto. De efetivo, nada.

No meio de 2011, ou seja, mais de um ano depois, o Canecão continuava lá: esperando os "consensos" dos "colegiados". Show mesmo só dos ratos passeando pelos entulhos.

Assim, onde antes existia um estabelecimento que promovia a cultura e a economia da cidade, hoje existe um galpão abandonado no meio de um terreno baldio, mas pelo menos o terreno agora "pertence ao estado".

O Canecão assim foi tomado das mãos dos "porcos capitalistas" para ser transformado nisso nisso aí: mais um exemplo do porque o poder público não existe para controlar telefonia, TV a cabo, lanchonetes, aeroportos, carrocinhas de pipoca e nem casas de show.

As ratazanas que hoje moram no que foi o velho Canecão também devem detestar privatizações.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011 Postado por mvsmotta   5 comentários:

Nunca entendeu direito a fixação dos filmes antigos pela chegada de carteiros.
Talvez porque já tivesse nascido no tempo do telefone (agora então com a internet isso ficava ainda mais estranho), talvez porque o carteiro só chegasse trazendo as contas do mês, mas pela primeira vez tudo parecia fazer sentido.

Nada de parente que foi morar no Japão, postal que vai chegar da India, um amigo que foi lutar contra ou a favor de algum ditador no fim do mundo, uma resposta sobre algum emprego ou o caminhão do Baú da Felicidade, nada disso.

Por alguma estranha razão, se via agora como um personagem de filme dos anos 50, um desses americanos esperando a carta de Harvard ou um moleque acordado pra ver a passagem do Papai Noel.

A sua espera, aliás, também tinha algo a ver com uma lenda. Era como se esperasse pelo Bom Velhinho e só aparecesse a Simone cantando "então é Natal...".

Seus vizinhos já tinha visto (e vivido) a tal lenda, alguns amigos também. Já lera sobre isso na internet e até viu alguns vídeos no You Tube, mas pessoalmente nunca vivera tal situação.

Dizem que algumas pessoas passam a vida inteira esperando por isso e ainda assim não conseguem chegar lá. Era uma espécie de nirvana e tudo dependia da porra do carro do Sedex. Podia chegar hoje, podia chegar amanhã, mas quem aguenta essa espera? Nem quando aguardava o resultado de um hemograma completo lembra de tanto nervosismo.


Por alguns momentos achou que tudo não passava de ilusão. Que as fotos de rostos felizes, tal qual alguém que encontrou sua alma gêmea, não passavam de algo tão falso e ilusonista quanto uma propaganda das facas Ginzo ou das meias Vivarina.

Mas finalmente o carteiro passou, depois de longa e dolorosa espera. Tantas noites sem dormir querendo uma notícia, tanta angústia e ansiedade sem uma palavra de consolo sequer.

Mas agora o sofrimento finalmente acabara. Viu seu nome escrito e nesse momento soube que sim, era real. Não era de conto de fadas, não era uma simples ilusão de felicidade, uma promessa vazia, um pote de outro atrás do arco-íris.


Segurou com força aquele embrulho e depois o abriu correndo, rasgando apressadamente seu próprio nome escrito no papel, o coração palpitando, a respiração acelerada.

Mas a espera compensou. Não seria mais uma dessas pessoas que passam a vida suspirando, imaginando como seria se tudo fosse diferente. Se esforçara, dera o melhor de si, acreditara em seu potencial e agora a recompensa estava ali, bem diante dos seus olhos.


E mal podia acreditar ao ler palavras tão emocionantes, palavras que nem todo mundo consegue ler em uma vida inteira, talvez as mais lindas que jamais lera na sua existência:

"Designed by Apple in California".

quarta-feira, 31 de agosto de 2011 Postado por mvsmotta   3 comentários:

Uma das frases que eu mais ouvi na vida é que existem amigos que são irmãos. Concordo com isso, muitos amigos tornam-se mesmo quase irmãos, quase.

Porque tem diferença. Amigos são convergências quase totais, são pessoas que se aproximam por afinidade, por gostos em comum, antipatias em comum, enfim, não existe aquela imposição genética que é o irmão de verdade.

Quem não é filho único sabe bem do que eu digo. As brigas pelo controle da TV, dividir o mesmo quarto, ir no banco de trás do carro implicando um com o outro até levar uns cascudos ou um esporro dos pais, fazer castelos de areia, jogar futebol na garagem de casa usando o portão como gol, dedurar o outro, sentir raiva um do outro e se juntar nas horas em que dá merda pra um deles.

Falo isso porque tenho um irmão que é diferente de mim em quase tudo, quase.

Enquanto eu prefiro andar pela Praia de Copacabana, ele prefere caminhar entre os prédios da Avenida Nossa Senhora. Enquanto eu fumo uma cigarrilha por dia, ele fuma meio maço de cigarros (meio porque tem mania de jogar o cigarro fora na metade, o que é ótimo, mas não tão bom quanto se ele parasse de vez).

Eu gosto de Smiths, daquela guitarra dedilhada e discreta do Johnny Marr, ele não detesta Smiths, mas também não é louco por eles como eu sou. Meu irmão prefere guitarristas virtuosos, como Steve Vai e Yngwie Malmsteen, com aqueles solos que me deixam atordoado e quase surdo. Eu não sou louco por esses guitarristas, na verdade detesto. Acho que prefiro ficar trancado num quarto com uma serra elétrica ou um CD da Cláudia Leite. Pensando bem, só a serra elétrica mesmo.

Sempre gostei de festas juninas, feiras de ciência, festinhas americanas e de ficar com as meninas (as que, sabe-se lá porque, me queriam, é claro). Meu irmão gostava de ficar no quarto conversando com os amigos, ouvindo música e tinha pavor das mesmas festas que eu não perdia de jeito nenhum. Correu atrás de meninas, é claro, mas namorou quase todas elas.

Todo mundo tem fases na vida, eu já tive, você já teve. Mas as do meu irmão eram fases incríveis. Quase virou russo, quase virou chinês, torceu pelos quatro grandes clubes do Rio de Janeiro e desconfio que pensou seriamente em tentar torcer pelo Bangu, mas desistiu a tempo.


Não entrava na água do mar, ainda que passássemos férias em Cabo Frio todo ano e, quando raramente fazia, ia de roupa e tudo, igual um iraniano. Andávamos na mesma turma, mas nossos amigos tinham um papo diferente para cada um de nós.

Comigo, sacanagens, saídas e garotas. Com ele, sacanagens, saídas, garotas e guitarras.

Sou de humanas, gosto de ler, escrever e observar pessoas. Ele é de exatas, chegou a começar a cursar Matemática, mas não teve muita paciência para observar números.

Conseguimos discordar em quase cada ponto de vista, gosto ou opinião. E nas únicas vezes em que concordamos totalmente, geralmente fizemos merda, como votar no Lula em 2002.

Quem vê de fora (e às vezes até nós mesmos, vendo de dentro) pensa que a gente se detesta. Não estão de todo errados, muitas vezes nos detestamos mesmo, afinal, o cara tem a ousadia de querer dividir a mesma mãe e o mesmo pai comigo, sabe como é, partilha de progenitores gera uns problemas, mas tudo passa.

Porque diferente de amigos, que se unem e viram irmãos por convergências, irmãos brigam e até viram inimigos por um tempo, mas a convergência os puxa de volta pelas orelhas, afinal, genética é que nem esporro de avó: coloca tudo no seu devido lugar.

Na verdade, como não amar alguém que dividiu a mesma barriga contigo, a mesma infância contigo, a mesma casa, o mesmo quintal, a mesma escola, as mesmas alegrias? Quer mais convergência do que isso?

É até bom que se discorde do resto todo, senão haja saco. Claro que se eu ou ele fossemos, sei lá,  serial killers ou dançarinos do "É o Tchan", talvez precisássemos rever a situação, mas felizmente não é o caso.

Existem amigos que se tornam irmãos e assim o são. Mas irmão é irmão, nem precisa "virar" amigo pra ser, porque já nasce feito. Na hora do "vamos ver", está ali, porque a amizade em si, é fraternal.

É a força do DNA, meu chapa, jamais a subestime (principalmente se o seu irmão for mesmo um serial killer, mas aí já é problema seu).

segunda-feira, 29 de agosto de 2011 Postado por mvsmotta   6 comentários:

Que o brasileiro não é um povo muito dado a pensar, os BBBs, a disseminação de funk, pagode e axé music estão aí como prova, mas isso não deixa de ser incômodo.

Nosso idioma já vem sendo esquartejado pelo mau uso, pelo desapego com qualquer norma, pela deglutição de esses e erres, nos já famosos "as criança" ou "eu sou o compradô", mas parece que não há limites para a estupidificação do idioma (e nem estou falando da reforma ortográfica estupradora de hífens e tremas).

Nosso linguajar não é grande coisa, nossas construções não são um primor, o idioma falado é espancado sem pena em praça pública, linchado como se fosse um batedor de carteiras de velhinhas aposentadas. Entre bordões de novelas, expressões sem pé nem cabeça e letras de música idiotizantes, o povo brasileiro vai se metendo no terreno baldio da indigência cultural.

Mas tudo bem, temos problemas maiores para cuidar.Uma Copa do Mundo e uma Olimpíada vêm aí e precisamos preparar nossa festa para receber os turistas com muito batuque, caipirinhas e superfaturamentos.

Porque falo isso? Porque conseguimos errar até quando acertamos. O Brasil é aquele time que ganha de 4x0 mas ainda assim é eliminado da competição, porque levou de 5 em casa. Nesse caso, a derrota no jogo de ida é a idiotização até do que está correto formalmente.

Primeiro foram os gerúndios. Conseguimos pegar o idioma pátrio que mal conhecemos, juntar com outro idioma estrangeiro que todo mundo finge que conhece, enfiar tudo no liquidificador dos manuais de telemarketing e transformar esse milk shake de gerúndio na saúva da Língua Portuguesa.


Como não sou grande conhecedor de gramática (apenas procuro escrever direito e tento consultar manuais quando tenho dúvidas) me sinto um daqueles casais nos filmes "Sexta-Feira 13", caminhando no matagal do idioma e morrendo de medo de cometer um deslize e ser atacado por um "vamos estar escrevendo" de uma hora pra outra.

Faço aqui uma confissão: peguei medo do gerúndio e esse medo está me transformando quase num português que só diz "estou a escrever", "estou a correr", "estou a evitar o gerúndio como o tinhoso foge da cruz".

Mas outra coisa me incomoda ferozmente, mais do que limão na Coca-Cola: o tal "risco de morte".

Algum professor de gabinete numa tarde de tédio resolveu queimar o "risco de vida" na fogueira da estupidez. Talvez já sabendo que o brasileiro adere a tudo o que não presta tal qual uma manada de bois de piranha, resolveu que dizer "risco de vida" era equivocado, afinal "ninguém se arrisca à vida" e sentenciou: o correto é "risco de morte".

A imprensa aderiu, a brasileirada começou a repetir e não demorou muito pra alguém que usasse o "risco de vida" fosse taxado de ignorante (ou como diria um monte de gente por aí, "ingnorante").

Só que uma rápida pesquisa na internet (lembram que não sou professor de português?) demonstra que risco de vida é uma elipse que contém - meio escondido, tal qual o último neurônio atuante da maioria das pessoas - a expressão "risco de perder a vida".

O tal "risco de morte" é errado? Não. É inclusive primo do outro, da família da mesma regra. Mas não é possível que a civilização tenha regredido tanto a ponto de ninguém se dar conta do quanto é ridículo escrever isso e ainda por cima corrigir quem ousa dizer o outro.

Aliás, quem usava "risco de vida" em suas obras era um tal de Machado de Assis, que no Brasil dos reality shows e do gerundismo provavelmente seria chamado de "ingnorante".

Pensando bem, acho que a civilização regrediu sim.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011 Postado por mvsmotta   3 comentários:

Dizem, não sei se é verdade, que os esquimós tem uma estranha forma de hospitalidade. Quando um visitante chega lá no seu iglu, o esquimó oferece duas das coisas mais valiosas que possui para compartilhar com o visitante: um jantar à base de gordura de foca e a sua esposa, a Sra. Esquimó.

Na concepção dele, carnes cruas e banha, além da própria Sra Esquimó (que provavelmente passa alguns meses sem banho) são dois presentes irrecusáveis, desses que transformam uma negativa numa ofensa grave.

Tudo bem que seja raro alguém conhecer algum esquimó (A Bjork não conta), mas frequentemente nos vemos agraciados com honras que, se não fosse para não melindrar os outros, recusaríamos na maior felicidade.

Por exemplo: visitar recém-nascidos no hospital e responder coisas como "você acha parece mais com o pai ou com a mãe?". O que dizer numa hora dessas? "Porra, sei lá, bebê é tudo igual"? Aí vira aquele papo de deputado baiano "ah, parece com o pai, mas tem os olhos da mãe e o queixo do avô".

Provar da comida alheia é outra dessas honras que eu faço questão que me "incluam fora" delas.

Alguém te chama pra um almoço na casa da avó, que cozinha "melhor que a Nigella", mas quando você chega lá descobre que o mais próximo daquelas comidas da TV ali é o humor da velha, que é pior do que o do Gordon Ramsay.

E pra piorar ainda tem o bife de fígado com quiabo pra encarar, sem contar que no final você ainda tem que encenar aquele "hummmm", que só é completado mentalmente: "ummmma bosta".


Quer ver outra honraria dispensável? Formaturas. Ficam os formandos lá levantando cartazes com piadas internas cada vez que algum nome é chamado para pegar o diploma, as famílias tirando milhares de fotos, aquela fila interminável de nomes e você lá, de saco cheio, imaginando se pelo menos vai rolar algum coquetel depois (ainda que ele fosse útil mesmo é antes, porque só bêbado pra achar graça naquilo).

Mais chato mesmo só os álbuns de fotografia. Veja, não sou um monstro sem coração que despreza as memórias alheias, nada disso. Acho legal ver as fotos dos outros com 1, 2, 3, 4, 5 anos, aquela clássica foto sentado no vaso quando criança, os móveis, roupas e cortes de cabelo da época do mouse de bolinha, enfim, é legal e tal.

O mesmo vale para fotos daquela viagem à Europa, quando seu amigo visitou 14 países em 18 dias e no final nem ele mais lembra direito se aquela fonte que aparece na fotografia fica em Lisboa, Budapeste ou Amsterdã. Ainda assim é legal ver fotos aleatórias de lugares diferentes.

Mas tudo tem limite.

Depois de 100 fotos do baile de debutantes, depois de ver a tia bêbada, o avô bêbado e até a vizinha bêbada, você começa meio que encher o saco. O mesmo para aquelas 500 fotos de golfinhos em Fernando de Noronha. Sim, porque golfinhos são legais, Fernando de Noronha é lindo, mas ninguém tem saco para 500 fotos da mesma viagem, nem que fosse uma viagem ao centro da Terra.

Fico pensando no que o esquimó deve dizer:

- Gente esquisita...só mostram umas figuras sem parar e nem me oferecem uma gosma pra comer ou a esposa pra consumir durante o processo...

quarta-feira, 24 de agosto de 2011 Postado por mvsmotta   3 comentários:

Certamente todo mundo já passou vergonha na vida. E a menos que queira bancar o Ziraldo (conhecido como "o homem que nunca broxou") da pagação de mico, até você que me lê já entrou nessa.

Levar tombo na frente dos outros, tomar um caldo na praia e sair com o calção de banho na cabeça, sorrir com alface no dente, todas esses são micos menores, que acontecem nas melhores famílias e até nas piores também.

Ser convidado para provar aquela receita maravilhosa no almoço de sábado e depois ter que dizer que está maravilhosa mesmo e não a merda que você achou ou contar alguma piada que só você achou graça podem ser adicionadas na lista de situações embaraçosas.

Mas é no álbum de fotos que tudo começa a complicar mais. Você vai visitar um amigo e ele resolve te mostrar as fotos da viagem que fez a Porto Seguro, com um monte de "gatas que ele pegou".

O problema é que entre a décima primeira e a décima segunda gorda bêbada até você já está incomodado por só conseguir balbuciar coisas como "só", "é" ou no máximo "foda".

Outra coisa é perguntar "está de quantos meses?" pra cunhada da sua namorada e só descobrir depois, quando ela sai de perto correndo aos prantos, que na verdade moça só curte um rodízio de pizzas dia sim, dia não.


Falar mal de alguém sem perceber que a pessoa se aproximou e está parada bem atrás de você, ou então fazer uma brincadeira totalmente absurda e surreal e ainda assim ofender alguém também entram fácil na lista:

- Não vou nessa aula nem que eu precise inventar que fui atropelado por um carrinho de montanha russa...

- Pô, cara, minha tia morreu caindo de uma montanha russa.


Ser pego roubando balas nas Lojas Americanas ou mijando na escada de incêndio do prédio também não são coisas muito legais para a sua reputação. Imagine você numa reunião do condomínio e o síndico pede a atenção de todos para mostrar um vídeo do circuito interno de TV onde você aparece esvaziando seu reservatório de Schincariol numa área comum. Com certeza não será o ponto alto da sua vida.

E isso me leva ao doutorado em vergonha, algo que certamente te acompanha desde os tempos da escola. Pior do que ser pego colando em exame psicotécnico, pior do que qualquer coisa que você já tenha feito sob o efeito do álcool, pior até do que o karaokê da festa de final de ano da sua empresa.

Digo isso porque não importa o que você tenha feito, o mico que tenha aprontado ou a frase sem noção que tenha acabado de dizer, nada será tão vergonhoso quanto ser pego cagando.

E se você duvida que não existe vergonha maior (nem broxar), pense no que aconteceria se na época da escola seus amigos subissem num banquinho e olhassem por cima daquelas portas que não vão até o teto e te pegassem lá sentado no trono.

Acho que nem a "Loira do Banheiro" me causava tanto medo.

domingo, 21 de agosto de 2011 Postado por mvsmotta   7 comentários:

Fone de ouvido é uma espécie de promoção 2 em 1: se o cretino do lado usar um, você não é obrigado a ouvir o hit parade tosqueira dele e se você estiver usando, evita que o mesmo cretino venha puxar conversa. É tanto benefício para a humanidade que pode facilmente ser comparado à penicilina.

Pena que cretino que é cretino parece ter alergia à fones de ouvido. Você entra num trem, ônibus, metrô, seja o que for, e lá está o animal ouvindo funk ou Banda Calypso no talo. Eles parecem querer compartilhar seu maravilhoso gosto musical com o mundo e educar as pessoas sobre o que é "sonzêra de verdade".

Mas o fato é que de qualquer maneira fones de ouvido nos salvam, e você nem precisa plugá-los em nada, basta colocar que já afasta 90% dos aborrecimentos diários, que geralmente chegam no formato de uma singela pergunta como "pode me dar uma mãozinha?". Usando fones você pode fazer um sinal com as mãos de que não ouve nada ou simplesmente berrar um "quê?", que já afasta o perigo.

Foi pensando nisso que lembrei de outros ítens desse kit de sobreviência na selva dos chatos, que são objetos ou atitudes que nos livram, ainda que momentaneamente, da influência deles.

Uma grande ferramenta é o celular. Seja aquele amigo mala dos tempos do colégio que está prestes a cruzar contigo numa calçada, seja o flanelinha insuportável que vem te pedir "cinquinho", o vendedor de loja de sapatos que insiste em andar atrás de você ainda que você já tenha dito umas 17 vezes que só está "dando uma olhadinha", seja o que for, basta uma ligação falsa e todo o aborrecimento vai embora.

- Pode deixar o carro solto que eu tomo conta, doutor.

(ligação falsa)

- Alô? O que? Você não vai me pagar o que deve? Vou aí agora te encher de tiro, seu filho da puta!

(Desliga a ligação falsa)

Vira pro flanelinha e diz:

- O que foi que você disse?

- Nada não doutor...


É tiro e queda. Pra você ter uma idéia do quanto ligações falsas ajudam, existe até um aplicativo do iPhone que gera um monte delas, até vindas do Darth Vader.

Se for smartphone ainda tem a vantagem de você fingir que checa e-mails ou faz algo muito importante, afastando assim o risco de puxarem assunto contigo em filas de banco ou supermercado.

Agora se você não tem um celular em mãos, não se desespere: folhear papéis também ajuda que é uma beleza. Funciona mais ou menos como se fingir de ocupado no trabalho. Você pode não estar fazendo nada, mas se andar de um lado para o outro com cara de quem acabou de descobrir que Papai Noel não existe que vão dizer no final do dia "Fulaninho sim, aquele rala o dia inteiro".

Mexa em papéis, procure coisas na carteira, abra o jornal na parte que fala do mercado financeiro, balance a cabeça negativamente (como se tivesse acabado de perder 10 milhões na bolsa) e depois olhe em volta: não sobra um mala te olhando com a perigosa intenção de vir pedir ou falar alguma coisa.

E como você não vive num filme e nem sempre tem um táxi passando na sua frente no exato momento em que precisa dele, o último objeto do kit é uma chave de automóvel. Você nem precisa ter um automóvel, compre só a chave num chaveiro e ande com ela no bolso.

Aí quando estiver passando na frente de um botequim imundo e um amigo te puxar lá pra dentro para beber cerveja, comer ovo colorido e falar do Corinthians, ou quando você estiver naquela festa chata, cheia de gente estranha e que ainda por cima anunciam um karaokê ou rodinha de violão, você finge que ouviu um barulho, tira a chave do bolso e fala com ar de desespero:

- É o alarme do meu carro, deixa eu correr lá senão roubam!

sexta-feira, 19 de agosto de 2011 Postado por mvsmotta   7 comentários:

Pois é, dizem que nada que é bom dura para sempre, deve ser por isso então que eu já durei aqui mais do que os 3 meses usuais que dizem que todo blog sobrevive.


Brincadeiras à parte, é uma experiência e um exercício diferente, inclusive quando olho minhas primeiras postagens e vejo como mudei.
Obrigado a quem fez parte disso aqui esse tempo todo, é legal ver que tem mais gente nadando comigo contra a correnteza aqui todo dia. Mau humor não é muito agradável nos outros, mas vocês (1, 2, 3, 10, não importa quantos), conseguem aturar de boa o meu. Obrigado.
Parabéns!

Postado por mvsmotta   2 comentários:

Dizem que gosto é que nem bunda, cada um tem a sua, acho isso sensacional, principalmente se você pensar que existem bundas bonitas e bundas horrorosas, sendo assim, certos gostos são a bunda da Jennifer Lopez, outros gostos são, no máximo, uma bunda de urso.

Por isso que eu acho engraçado quando alguém vem me chamar para algum programa, dizendo coisas que supostamente deveriam me fazer ficar afim de ir junto, mas na realidade têm efeito contrário. Por exemplo, quando me convidam para uma deliciosa sequência de camarões. Camarões graúdos, assados, cozidos, fritos, com Nutella, só que tem um pequeno detalhe: sou alérgico aos tais crustáceos, só aceitaria um convite desses se viesse junto com uma caixa de Polaramine.

Mas esse caso é até desculpável, afinal ninguém precisa ter a ficha médica dos amigos e até a recusa ao convite é simples, basta dizer "tenho alergia a camarão, mas fica pra próxima".

Muito pior são aqueles convites para um monólogo teatral "maravilhoso e denso", para maratonas de filmes conceituais ou qualquer outro programa furado que invariavelmente geram situações curiosas:

- Bora sair na sexta? Conheço um bar muito bom.

- Vamos sim, tava afim de fazer alguma coisa mesmo.

- Demorou! Lá é bonzão, depois das 10 da noite rola funk até de manhã...

- Putz, cara, esqueci, minha tia-avó vai morrer amanhã, não vai dar pra ir...fica pra próxima.

Fatalmente gente que faz isso (assim como eu faço) acaba visto como chato, exigente, reclamão, mas qual a alternativa? Rebolar até o chão? Passar a noite cantando versinhos como "vou dar uma pressão nesse seu rabão"? Por isso tenho medo de convites, porque é uma arte recusá-los.


- Amanhã minha banda toca na Lapa, não quero saber de desculpas, vejo você lá.

- Ah é? Você tem uma banda?

- Tenho sim, a gente faz um fusion de axé, funk, baião, samba e maracatu, tudo tocado em latas de tinta, você precisa ver, é o maior barato.

Como alguém se livra de uma dessas sem precisar recorrer à uma caixa de Valium ou cianureto?

"Funk neurótico"?

- Pô, cara, vou sim, vai lá que eu já tô indo atrás.

"Delicioso mocotó na laje"?

- Não sai daí não que eu tô chegando.

Porque não tem jeito, pra mim não existe coisa como micareta legal, sambinha excelente, rodinha de violão divertida e nem pagode maravilhoso. São palavras que não casam, que são tão indigestos quanto caldeirada de Siri com Toddy ou maratona de cinema checheno.

Pena que dizer "tenho alergia a Parangolé, mas fica pra próxima" não cola muito, apesar de nem ser tão distante da realidade.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011 Postado por mvsmotta   4 comentários:

Se me pedissem para listar palavras identificadoras de cretinos, eu conseguiria dizer uma boa quantidade sem precisar de muito esforço. Não adianta, um chato é chato em qualquer lugar, eles parecem aqueles gremlins do filme, que jogavam água e se multiplicavam.

E como são homogêneos os chato! O vocabulário chato é praticamente um idioma, um patrimônio deste povo sem pátria, desses ciganos da malice.


Por isso elaborei esta pequena coleção de termos, que carinhosamente batizarei de "Introdução ao Português Cretino":

Lúdico - Sempre que um chato não se tem o que falar ou quer parecer descolado mesmo sem dizer coisa alguma, surge o lúdico, que é pra ele mostrar que não está ali pra brincadeira.

Descolado - Saudade do tempo em que essa era só uma palavra que designava o resultado da aplicação de uma super-bonder comprada no Paraguai.

Estadunidense -Talvez o maior identificador de malas do mundo, o sujeito vai te explicar que "americanos são todos" e que cidadãos dos Estados Unidos portanto são estadunidenses, mas não adianta, ele é que é um cretino mesmo.

"Toca Raul!" -  Auto-explicativo. Se você nem imagina o porque, talvez a chatice já tenha começado a devorar seus miolos como uma espécie de zumbi do Oswaldo Montenegro.


Qualquer termo em francês - Chato que se preze é metido a poliglota, afinal, legal é encher o saco dos outros em vários idiomas e aqui não importa se é coup d'etat, trés bien ou menage a trois, na maioria das vezes o mala abandonou a Aliança Francesa no meio do primeiro nível, mas quer te fazer pensar que é uma espécie de Voltaire do Baixo Gávea.

Qualquer termo em inglês: Semelhante ao de cima, com a diferença que ele estudou até o quarto livro do Brasas e por isso chama trabalho de "job" e repete termos como "anyway", "by the way", "save the date" e escreve "ASAP" nos emails.

Visceral - Vai por mim: é senha para chatice. Afaste-se de qualquer peça de teatro que traga esse termo na sinopse ou em alguma crítica. O mesmo vale para filmes, é quase tão perigoso quanto músicos que fazem fusion de techno e baião.

A priori - Kant não sabia o mal que estava causando quando resolveu usar esse termo, não sei se pela primeira vez, mas com certeza pela última vez de forma respeitável. Um excelente acompanhamento para "a priori" é fazer aspas com os dedos.

Colocação - Eu coloco a mão no fogo por alguém, coloco um pote em cima da geladeira, coloco a picanha pra assar, coloco algo no bolso, mas dizer que quer fazer uma "colocação" ao invés de simplesmente dizer que quer dizer alguma coisa é lamentável. Na boa, coloque algo na boca antes de abrí-la pra falar essa bosta.

Gerúndios - Gerúndios são uma espécie de segredo de Tostines: você não sabe se é detestável porque é usado pelos atendentes de telemarketing ou se os atendentes de telemarketing é que são insuportáveis porque abusam dos gerúndios. Na dúvida, fico com os dois.

True - Quem não curte rock ou não tem um amigo metaleiro talvez nunca tenha ouvido essa, mas true é aquele cara que só anda com camisa (preta) de banda, só curte metal escandinavo de garagem e jamais, jamais tira uma foto sem imitar garras com as mãos, ainda que ele diga que isso é coisa de poser.


Intenso - Intenso é bom? Uma mulher de TPM 30 dias por mês é bom?

Homofobia - Substituiu o "racismo" como o termo que mais oferece perigo à vida humana na terra, porque se for repetido mais umas 20 vezes, creio que pode inclusive alterar o movimento de rotação do planeta e seu campo gravitacional.


Que eu consiga lembrar, é isso, mas provavelmente deixei muita coisa passar, digo isso porque tenho uma anomalia que me faz ficar surdo depois que alguém pronuncia dois ou três termos destes seguidos. Sabe quando alguém vira e diz "tenho uns panfletos da Herbalife aqui e..."?

Pois é, na mesma hora meus ouvidos páram de funcionar.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011 Postado por mvsmotta   4 comentários:

Outro dia um amigo meu disse que não entende porque o Facebook traduziu o seu botão "like" (aquele que sinaliza quando uma pessoa gosta de algo que vê no perfil de outra) como "curtir" ao invés de "gostei".

Esse "curtir" fica parecendo propaganda de leite achocolatado, com um monte de adolescentes dizendo de maneira forçada coisas como "curti muuuito essa manobra meeeeu".

Isso me fez pensar no porque de todo adolescente de comercial soar assim, como diria, tão idiota mesmo.

Porque apesar de parecer impossível, jovens em propagandas parecem ainda mais retardados do que na vida real, afinal de contas, quem vira pra um amigo e manda coisas como "noooossa, que rrrampa irada caaaaara!"?

Sério, ninguém que não tenha sido exposto à radiação acorda de manhã e solta um "mãe, quero devorar um sucrilhow"?

É um fenômeno, aliás, que não é só restrito à adolescentes e comerciais de TV. Quase todo filme, seriado, novela ou coisas do gênero sempre mostra gangsters, surfistas, lutadores, universitários, etc, de uma forma, no mínimo, constrangedora.

Eu sempre lembro dos personagens do filme "Menino do Rio" ou do seriado "Armação Ilimitada" , todos surfistas que só falavam coisas como "auê, brother!" ou "nuossa, que onda chocante!". Ainda era criança na época, mas já ficava imaginando se para surfar bem era preciso fazer lobotomia ou algo assim.


Mais ou menos como pobre/favelado ou bandido/favelado de filme, que não acerta uma concordância, quase como se isso fosse uma imposição genética e também não consegue dizer uma frase sequer que não contenha um "caralho" ou "porra", ainda que o contexto não permita tal construção.

- Bom dia, tudo bem, porra?

- Bom dia, caralho!

- Quer pão com manteiga ou sem manteiga? Porque não tem mais nada pra comer.

- Sem manteiga, caralho.

Não dá pra levar a sério, nem sob a mira de um revólver cenográfico.

Bizarros também são esses diálogos de teatro ou filmes de época que colocam todo mundo falando na terceira pessoa, como se Romeu e Julieta fossem pular do alto de uma árvore a qualquer momento e distribuir veneno para a platéia.

Certa vez conheci uma garota que falava assim, na vida real. É sério.

Imagine como era esquisito até o osso ouvir coisas como:

- Ligue-me mais tarde, estarei na festa do Fulano, se fores, avisa-me.

Uma vez quase respondi :

- Claro, guardarei o número de vosso telefone com zelo na minha algibeira.

Mas tudo bem, enquanto eu não falar que nem adolescente de comercial, estou mantendo a dignidade.

 
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