Sempre soube de histórias de pessoas que acabam sendo "adotadas" pelos novos companheiros do pai ou da mãe. Na minha família mesmo conheço vários casos. Tios, tias, avós, que um belo dia conheceram alguém que trazia junto o famoso "pacotinho" e no final das contas abriam suas vidas para recebê-los.
Também lembro que achava isso lindo, uma espécie de altruísmo inatingível, algo digno de aplausos e considerações, afinal, nossa mente é e sempre será povoada por histórias de madrastas malvadas e padrastos bêbados que tratam a casa inteira pior do que Judas no Sábado de Aleluia.
Pra mim essas pessoas eram especiais.
Mas a verdade é que conhecer alguém que já tem filhos e receber esta pequena família como parte de um todo não é nada demais, é apenas o que qualquer pessoa normal faria.
Ainda que faltem momentos de intimidade - em tanta quantidade nos outros casais sem filhos - uma mulher que já é mãe nos mostra como valorizar os poucos momentos de intimidade possíveis.
Ela não deixa de ser mulher, de desejar coisas de mulher. Muitas vezes quer casar novamente, ser mãe novamente, só que - diferente daquelas que têm todo o tempo do mundo para a relação, mas pouco tempo restante para realizar estes sonhos de ser esposa e mãe - ela chega com calma e nos convida a construir algo que já tem fundações, alicerces e um projeto que precisa ser terminado.
Chega e nos convida a entrar numa família semi-pronta e terminá-la juntos. Sem pressa, sem angústias, com aquele passo seguro que só quem "já esteve lá" pode ter.
Ela não deixa de ser menina, não deixa de ter o seu "eu", mas como também traz junto de si um outro "euzinho" menor, frágil, dependente, ela geralmente foge com mais delicadeza do egoísmo daquelas que não precisam se preocupar com outro umbigo além do seu.
E como não amar este pequeno "eu" que se aproxima de nós e torna-se também nosso a cada dia? Como não segurar uma criança no colo, levá-la sobre nossos ombros, colocá-la para dormir, dar comida na boca, aturar malcriações, receber sorrisos, beijos e abraços e ainda assim não se apaixonar perdidamente?
Costumo dizer que no início nós buscamos gostar da criança porque ela é "filha da namorada", mas em pouco tempo - e ainda que não deixe de ser o "filho da namorada" ou a "filha do namorado", tanto faz - construímos uma relação nossa, independente da figura materna-paterna que nos apresentou àquele pequeno ser humano.
Nosso amor, nossa amizade, nosso carinho, nossas saudades, nossos segredos, passam a ser particulares e não tem mais nada a ver com o fato de sermos companheiros dos seus pais.
Finalmente, eles viram também nossos filhos. Sim, ainda que sem carga genética, são filhos por escolha, por convivência, são filhos por compartilharem sua infância conosco, seus sonhos.
São, sim, nossos amigos. E como alguém pode ser considerado especial só porque ama amigos que viram filhos, mas que não deixam de ser amigos?
Especiais são eles. Para nós.












